Miguel Reale,
quase um século
de amor ao Direito
do Direito por Fernanda Sal

Ninguém melhor do que Miguel Reale, falecido na madrugada do dia 14 de abril, vitimado por um infarto, para personificar o “Gente do Direito”. Apesar de os pais, Braz e Felicidade Rosa, terem torcido para que ele seguisse Medicina (tradição na família, que teve seis gerações de médicos, inclusive o pai), Reale, que nasceu em 6 de novembro de 1910 em São Bento do Sapucaí, cidadezinha encravada na Serra da Mantiqueira, acabou optando por Direito, onde se destacou como aluno,
professor, político, jurista...
Reale chegou a São Paulo com 11 anos e o gosto em protestar contra o governo Vargas levou-o ao Largo São Francisco, onde graduou-se em 1934. Um ano antes havia fundado o Reale Advogados Associados. Em 1935, casou-se com
Filomena Pucci, com quem viria a ter três filhos (Ebe, Lívia e Miguel Reale Junior).
Tornou-se professor da USP na década de 40 (acabaria sendo reitor em duas
oportunidades: 1949 a 1950 e de 1969 a 1973). Alguns alunos de Reale, como o hoje o juiz aposentado Nicanor da Silva Baptista Filho, lembram que ele era extremante didático, porém sisudo
e pragmático. Além do Direito, Miguel Reale tinha paixão por Filosofia, chegando, inclusive, a fundar o Instituto Brasileiro de Filosofia Brasileira (1949) e, cinco anos mais tarde, a Sociedade Interamericana de Filosofia.
Ainda na década de 40, Reale tornou-se secretário da Justiça do primeiro mandato de Adhemar de Barros no governo paulista, ocasião em que criou a primeira assessoria
técnica-legislativa, prática que seria implantada por outros governos estaduais e federal. Na década posterior, tentou uma vaga no Senado, mas não se elegeu. Voltaria à política quando Adhemar de Barros retornou ao governo de São Paulo, época do golpe de 1964. O professor — como preferia ser chamado — era adepto da doutrina fascista de Mussolini e, talvez por isso, tenha apoiado os regimes ditatoriais. Quando começou a “fazer” sua própria geração de
profissionais do Direito
(lecionou para o filho Miguel Reale Junior no Largo São Francisco), divergiu com o filho em ideologia política — vestiu a camisa do regime militar e o filho, a da
oposição.
A vida profissional de Reale meou entre as áreas jurídica, política e acadêmica. Foi um dos grandes olaboradores e elaboradores de importantes documentos jurídicos
brasileiros, como a Emenda Constitucional nº 1, em 1969; o novo Código Civil (o projeto foi entregue em 1970, mas somente promulgado pelo
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em 2002); e a Constituição de 1988.
Notabilizou-se no Direito com o livro Teoria Tridimensional do Direito, (Saraiva), onde defendeu a análise da
profissão por três princípios: fato, valor e norma.
Intelectual e didático, teve o
reconhecimento do trabalho pela legião de ex-alunos que se tornaram fãs de sua vida e obra. Especialistas afirmam que as obras de Miguel Reale,apesar da
característica conservadora, fazem parte dos pilares de qualquer análise do Direito.
Era apaixonado por livros (onde morava desde 1973 — na Rua Honório Líbero ao
lado da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde foi realizada a missa de sétimo dia — mantinha uma biblioteca com mais de 20 mil títulos lidos e não catalogados). Organizado, sabia onde estava cada obra e, até mesmo, se alguém havia mexido na estante. Uma das únicas “ranzinzices” era a de não gostar de mudar nada de lugar. “Se alguém mexesse em um porta-retrato, ele brigava”, conta Rubens Perez que trabalhou com Reale desde 1973. Entre os ídolos literários figuram autores como Machado de Assis e Euclides da Cunha. Chegou a escrever O Cansaço das Ideologias, em 1962, em que parodiou Machado de Assis. E entre os 74 livros publicados está o Face Oculta de Euclides da Cunha, de 1993, pela editora Topbooks. Com tantas obras jurídicas e literárias publicadas, em 1975 passou a ocupar a cadeira 14 da
Academia Brasileira de Letras e, dois anos depois, a 27 da Academia Paulista de Letras.
Não demorou para que a dedicação do professor à educação e ao País fosse valorizada: recebeu mais de 30 prêmios e condecorações, entre os quais a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Nacional; Comendador da Ordem do Mérito de Educação
Nacional; Grande Oficial da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho; “Guerreiro da Educação”, do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) em parceira com o jornal “O Estado de S. Paulo”.
Ser pragmático não foi
característica só da vida academica e política de Reale, mas também da pessoal. Seguia à risca as ordens dos médicos, mas chateava-se quando não podia tomar o “sagrado” cálice de vinho durante o almoço. Jamais marcou compromisso para o horário do almoço, pois gostava de fazer as refeições em casa, já que há mais de 30 anos passou a fazer a siesta, hábito europeu que o
deixava com mais vigor. Embora nonagenário, com quatro pontes de safena, continuava freqüentando o escritório, onde preparava pareceres com o auxílio do filho. Sempre preocupado em honrar os compromissos, não parava um instante e ainda brincava que “para um velho, um segundo é uma hora”. Além de Reale Junior, um dos quatro netos, Eduardo Reale Ferrari, também enveredou pelo caminho jurídico e, junto com o tio, trabalha no escritório da família.